Agronegócio Movimenta o Mercado Executivo

Posted on January 16th in news

Agronegócio Movimenta o Mercado Executivo

Recrutadores afirmam que setor será um dos mais aquecidos em 2015, especialmente no Centro-Oeste. Por Edson Valente, de São Paulo

Cristiano Soares, diretor financeiro da V-Agro, atua em São Paulo, mas vai semanalmente ao Mato Grosso: “É fundamental participar ativamente da produção”

O setor de agronegócios no Brasil pode sofrer com eventuais adversidades climáticas, mas es- tá menos sujeito às intempéries da economia. Responsável por mais de 20% do PIB do país, o segmento acena com boas pers- pectivas de trabalho para exe- cutivos neste ano, alimentadas em grande parte pela profissio- nalização das empresas.

A busca por resultados me- lhores e a consequente necessi- dade de mão de obra qualifica- da — tanto na área corporativa como na operacional — para al- cançar essas metas têm se inten- sificado nos últimos anos. “O objetivo é chegar ao nível de profissionalização das empresas de bens de consumo”, afirma Thiago Pimenta, sócio da con- sultoria Flow Executive Finders. Ele calcula que, em 2014, perto de 30% do resultado operacional da empresa veio do agronegó- cio, incluindo a infraestrutura e a logística de apoio ao setor.

Caroline Badra, sócia e consul- tora de recrutamento e seleção para a prática do agronegócio da Asap Recruiters, ressalta que o surgimento de vagas no segmen- to independe de fatores como eleições, política e situação eco- nômica. “Tem havido na indús- tria agrícola uma forte entrada de multinacionais, sobretudo de defensores e fertilizantes. Fun- dos de investimento têm adqui- rido empresas familiares brasi- leiras, e muitas se dedicam cada vez mais a preparar a sucessão.”

Para Jeffrey Abrahams, só- cio-gerente da companhia de re- crutamento de executivos Fesa, essa movimentação abre cami- nho para a contratação de CFOs, controllers e gerentes gerais. “Há também, na área de insumos, muitas fusões e aquisições que aquecem o mercado”, afirma.

A procura por executivos, diz Caroline, ganha força no Norte e Nordeste — em Estados como Bahia, Maranhão e Piauí —, e es- pecialmente no Centro-Oeste, que respondeu por cerca de 30% das vagas do setor que a Asap trabalhou no ano passado. Por essa razão, a mobilidade é um quesito importante para os exe- cutivos que atuam nesse campo. Como diz Cristiano Soares, dire- tor financeiro e de relação com investidores da V-Agro, produ- tora de grãos e fibras, “é preciso estar disposto a sujar a bota”.

Formado em direito, Soares começou a carreira como advo- gado de um grupo de empresas e, em 2004, aproveitou uma opor- tunidade em uma companhia de biodiesel. “Interessei-me pelo projeto e fui para trabalhar na criação do negócio”, diz. No ano seguinte, migrou para o merca- do financeiro, mas rapidamente voltou à mesma empresa de bio- diesel, dessa vez para a imple- mentação de sua oferta pública de ações (IPO). Entre 2006 e 2007, esteve em uma companhia do setor de shopping centers, e em 2008 chegava pela terceira vez à Brasil Ecodiesel, agora com a missão de participar de sua re-estruturação financeira.

Em 2010, a empresa decidiu entrar no negócio de grãos e fi- bras. Para tanto, incorporou o grupo agroindustrial Maeda e, pouco depois, a Vanguarda Par- ticipações. Em 2013, Soares foi convidado pelo CEO da então re-cém-constituída V-Agro para as- sumir sua área financeira, com a condição de sair “da zona de conforto e do ar-condicionado”. “Um gestor do agronegócio tem de entender os problemas que o administrador da fazenda en-frenta. É fundamental participar ativamente da produção”, afir- ma. Dessa forma, embora esteja alocado em um escritório em São Paulo, o diretor financeiro visita semanalmente as instala- ções da V-Agro em Nova Mu- tum, no Mato Grosso.

Em sua opinião, o setor prepa- ra o profissional para situações que exigem jogo de cintura e fle- xibilidade. “As projeções mu- dam o tempo todo e a progra- mação requer adaptações de úl- tima hora”, explica. “Há a inter- ferência do clima, de pragas e de mudanças de preço. Os ciclos são longos, já estamos preparan- do a safra que será plantada em setembro ao mesmo tempo em que colhemos a de 2014/15.”

Em termos de atratividade, Pi- menta, da Flow, define o agrone- gócio como grande chamariz e formador de bons executivos, justamente pelo desafio de tra- balhar com recursos que não são controlados pelas companhias. O consultor diz que é comum a migração de profissionais das indústrias de bens de consumo, automobilística e do setor de serviços para o segmento — em- bora ainda identifique certo preconceito dos que não co- nhecem bem as oportunidades que o negócio oferece. “Os salá- rios chegam ao nível dos ofere- cidos pelas empresas de bens de consumo”, afirma.

A área de planejamento finan- ceiro é uma das que estão aqueci das no agronegócio, na percep- ção de Alexandre Kalman, sócio da Hound Consultoria, especiali- zada no recrutamento profissio- nal para os departamentos de fi- nanças e impostos. “Buscam-se gestores com um olhar estratégi- co para o futuro”, diz. Entre janei- ro e outubro do ano passado, 30% do faturamento da Hound ficou por conta do agronegócio.

Há menos de um ano na Bio- sev, companhia do setor sucroal- cooleiro, como gerente tributá- ria estratégica, Fernanda Santos de Oliveira conta que pesquisou bastante antes de aceitar uma oferta no setor. Antes na área consultiva tributária, ela diz que foi atraída pelo grande dinamis- mo das operações ligadas a sua formação. “Trata-se de uma boa oportunidade para o desenvolvi- mento de minha função. Repor- to-me diretamente ao CFO e pla- nejamento é desafiador.”

Ela explica, por exemplo, que as contribuições previdenciárias são específicas e, além dos im- postos federais, algumas opera- ções incluem impostos esta- duais. “Devido às especificida- des, quem chega de outras áreas de negócio precisa ser flexível pa- ra adquirir a vivência necessária”, ressalta Caroline Badra, da Asap.
Aos 38 anos, o engenheiro agrônomo Edson Corbo já acumula 16 de mercado. Atual- mente, ele é diretor de agrono- mia para a América do Sul da NexSteppe, empresa de comer- cialização de sementes de sor- go. “Sempre fiz tanto a função de gestão de projetos como a de pessoas em áreas técnicas”, diz.

Para Corbo, o conhecimento técnico em seu cargo é necessário para conectar profissionais e projetos às necessidades da pró- pria companhia. Ele já havia exercido o papel de gestor em seus empregos anteriores, na Dow AgroSciences e na Monsan- to. Além de acumular cursos, o executivo afirma que desenvol- veu competências de liderança ao mudar muito de departamen- to e de localização geográfica de trabalho, o que “dá bagagem pa- ra interagir com pessoas”.

Corbo vê mais desafios para o executivo no agronegócio brasi- leiro do que no mercado ameri- cano. Isso porque o Brasil é um país tropical que produz nos 12 meses do ano, o que exige mui- to mais do profissional. “Nos EUA, o inverno é usado apenas para planejamento na área agrícola. Aqui, plantamos e co- lhemos ao mesmo tempo, em regiões diferentes”, afirma.

Apesar de a economia brasi- leira não estar em um momen- to favorável, o diretor da NexSteppe destaca que, em termos de necessidade de profissionais, o mercado local continua bas- tante atrativo. “As empresas vão precisar de pessoas com expe- riência, que agreguem mais aos projetos”. Nessa conjuntura, as companhias também investem em treinamento para os funcio- nários. “Elas estão preocupadas com retenção”, diz.

De olho na busca por aprimo- ramento em capacidade de ges- tão por parte dos profissionais do setor, as escolas têm feito in- vestimentos. Na Fundação Dom Cabral (FDC), o programa de ges- tão em agronegócios surgiu em 2013. Segundo Denise Leite, ge- rente de projetos dos programas abertos da FDC, ele foi precedido por um núcleo de desenvolvi- mento do conhecimento em agronegócio, criado em 2012 com o objetivo de levantar temas de gestão com foco no setor.

“A estrutura do curso é modu- lar, para que possa ser conciliado com as atividades do aluno, seja no campo, na cooperativa ou na empresa”, explica. São cinco mó- dulos de 14 horas, totalizando 70 horas, e a frequência das aulas é quinzenal. O perfil dos partici- pantes é heterogêneo, de acordo Denise. “Há empresários e gesto- res de empresas e de proprieda- des rurais particulares.”